Criticar a sociedade do século 21, a partir de uma situação hipotética ocorrida num passado não muito distante. A meu ver, é disso que trata o filme Ensaio sobre a cegueira. A obra é magnífica, do ponto de vista de quem procura ali uma análise da sociedade atual.
O filme mostra a história de uma cidade que vive uma epidemia de cegueira. Os cegos são enclausurados num prédio, que não tem condições de abrigar as centenas de pessoas que foram enviadas pra lá. Não há, em nenhum momento, proteção dos governantes que se preocuparam apenas em isolar os “doentes”. No filme, a única intervenção do governo se dá com o envio de alimentos (limitados) e a segurança (ou isolamento) do local. As pessoas ficam ali esquecidas, como se fossem, além de cegos, invisíveis.
O filme leva o espectador brasileiro a lembrar a situação de segregação que acontece hoje no Rio de Janeiro*. Além disso, Ensaio sobre a Cegueira joga com sentimentos que vão além do amor e ódio: gratidão, asco e medo são apenas alguns deles. É interessante ver que na nova “moradia”, as pessoas são obrigadas a viver o coletivo. Algo difícil de se pensar hoje, quando vivemos com grande incentivo ao individualismo.
Não li a obra de Saramago, na qual o filme se inspira, mas fiquei com vontade, porque os sentimentos que o filme proporciona devem ser ainda mais aguçados com a leitura do livro. Mas, com o filme, já vale a reflexão: quem são os invisíveis de hoje no Brasil? Quem são os que ficam isolados, esquecidos, sem condição nenhuma de progredir? Quem são aqueles que sequer são ouvidos?
* "Seja na cidade do Rio, em Duque de Caxias, em Macaé etc, o discurso do choque de ordem bota abaixo sem discussão a história, a cultura, a vida das pessoas, antes que se possa argumentar com a lógica, com o bom senso. Exatamente o que fazia a ideologia do nazi-fascismo. Parece exagero, mas esse discurso – e sua prática sumária – é uma prima de primeiro grau dos linchamentos de mendigos, da queima de índios nos pontos de ônibus, das surras em prostitutas na madrugada. Tudo em nome da “ordem”, da “limpeza” das ruas, do “ordenamento”, da “organização”, da assepsia, do “bom visual”. [...]
Porque afinal de contas, essa política também é extremamente covarde: primeiro baixamos o cacete nos informais, nos malditos camelôs, nos biscateiros ilegais que atravancam o progresso do país... Depois, se der tempo, podemos desconcentrar a renda, fazer reforma agrária, prender os corruptos e fazê-los devolver o dinheiro, essas coisas. Depois. Agora não. O valente só é valente em relação ao mais fraco. Qualé, choque?..."
(trecho de texto publicado em março, no portal Overmundo)
* Sobre o assunto, ver também portal Inverta
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quinta-feira, 21 de maio de 2009
A cegueira no Brasil
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quinta-feira, 26 de março de 2009
A validade do Bolsa-Família
Nesta semana, o Governo Federal divulgou que parte das 450 mil famílias que tiveram pagamentos do programa Bolsa-Família cancelados em janeiro deve voltar a fazer parte do programa. Isso, devido ao aumento do teto de renda per capita, que vai subir de 120 para 137 reais. Confira aqui.
Quem já viu de perto a situação de famílias que vivem em situação de vulnerabilidade social, sabe bem o quanto é preciso este apoio do Governo pra fazer com que os sujeitos (as crianças e adolescentes, especialmente), tenham uma vida mais digna e saudável. Não se trata apenas de dar dinheiro a pessoas que foram excluídas do desenvolvimento econômico. Mais que isso, o programa representa uma tentativa de tentar incluí-las no convívio social, do qual foram privadas.
Para aqueles que falam mal do Bolsa Família, pergunto qual a contribuição dada pelos militares do Exército Federal pra ganhar bons salários? Ao que parece, o Brasil não precisa investir tanto em uma estrutura que é pouco utilizada, e que, aos olhos de muitas pessoas, não dá nenhuma contribuição ou retorno. Pra mim, o Exército é mais uma forma de distribuição de renda, pois leva o dinheiro pra regiões desfavorecidas economicamente.
É o caso da região sul do Rio Grande, por exemplo. Por lá, há poucas empresas e raras indústrias ou outras formas de empreendimentos econômicos. O Governo Federal consegue, através do Exército, levar dinheiro pra mais cantos do País. Nada contra. Ao contrário, apóio mais esta forma de distribuição de renda.
“Ah, mas o Exército é imprescindível pro caso de termos o Brasil envolvido numa guerra”, diriam alguns. Difícil acreditar que teremos uma. Então, que incentivemos mais o desenvolvimento de uma cultura de paz, ao invés de estarmos nos preparando para a batalha até hoje inexistente.
Quem já viu de perto a situação de famílias que vivem em situação de vulnerabilidade social, sabe bem o quanto é preciso este apoio do Governo pra fazer com que os sujeitos (as crianças e adolescentes, especialmente), tenham uma vida mais digna e saudável. Não se trata apenas de dar dinheiro a pessoas que foram excluídas do desenvolvimento econômico. Mais que isso, o programa representa uma tentativa de tentar incluí-las no convívio social, do qual foram privadas.
Para aqueles que falam mal do Bolsa Família, pergunto qual a contribuição dada pelos militares do Exército Federal pra ganhar bons salários? Ao que parece, o Brasil não precisa investir tanto em uma estrutura que é pouco utilizada, e que, aos olhos de muitas pessoas, não dá nenhuma contribuição ou retorno. Pra mim, o Exército é mais uma forma de distribuição de renda, pois leva o dinheiro pra regiões desfavorecidas economicamente.
É o caso da região sul do Rio Grande, por exemplo. Por lá, há poucas empresas e raras indústrias ou outras formas de empreendimentos econômicos. O Governo Federal consegue, através do Exército, levar dinheiro pra mais cantos do País. Nada contra. Ao contrário, apóio mais esta forma de distribuição de renda.
“Ah, mas o Exército é imprescindível pro caso de termos o Brasil envolvido numa guerra”, diriam alguns. Difícil acreditar que teremos uma. Então, que incentivemos mais o desenvolvimento de uma cultura de paz, ao invés de estarmos nos preparando para a batalha até hoje inexistente.
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